Bolsas para mães: a experiência de quem faz intercâmbio com filhos

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Jacqueline e Ana Luísa/Arquivo Pessoal

É possível estudar em outro país com filhos? Existem bolsas para mães? Muitas mulheres nem chegam a se fazer perguntas como essa, pois nem cogitam a possibilidade de fazer intercâmbio com filhos.

Embora na grande maioria dos programas de bolsa não haja restrições sobre isso, o fato é bem compreensível. Afinal, ser mãe e frequentar uma universidade no Brasil já é uma missão bastante complicada. Imagine, então, além de enfrentar todas as dificuldades, ainda ter que encarar os desafios de se mudar e morar em outro país com uma criança.

Felizmente, apesar de não ser nada fácil, não é impossível! E quem afirma isso são duas mães que resolveram desafiar as limitações socialmente impostas, o medo e a insegurança e ir atrás do sonho de estudar fora com as suas crias.

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Bolsas para mãe: como é fazer intercâmbio com filhos

Já fizemos um post com dicas sobre intercâmbio e bolsas para mães (você pode acessá-lo aqui). Com mencionamos lá, infelizmente, ainda são poucas as oportunidades com foco específico em mulheres com filhos. Porém, isso não significa que mães não possam se candidatar a programas de bolsas de estudo.

Desta vez, nosso objetivo não é, contudo, falar sobre opções de bolsas para mães. A ideia é trazer o relato de duas brasileiras que viveram ou estão vivendo essa experiência – e que tem muito para compartilhar com outras mulheres: a Keyla Maria Frota Lemos e a Jacqueline Mendes Correia.

Doutorado sanduíche com recém-nascido

A Keyla tem 33 anos e é formada em Letras Inglês/Português pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e fez mestrado na Universidade Estadual do Ceará (UECE). Atualmente, ela faz doutorado em Linguística na UFC. O plano inicial era esperar o final do doutorado para ter filho, mas, por querer engravidar mais cedo, ela acabou “deixando rolar” e o Pedro Henrique veio bem no meio do curso.

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Keyla e Pedro Henrique/Arquivo Pessoal

Por sorte, diferentemente da maioria das mulheres nessa situação, ela diz que não enfrentou resistência na academia: “Não tive problema com preconceito ou pressão alguma por estar na pós e grávida. A minha orientadora no Brasil é uma mulher incrível em todos os sentidos da palavra. Ela comemorou comigo e sempre me oferece seus conselhos sábios de mãe”, contou.

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Quando descobriu que estava grávida, a Keyla já sabia que tinha sido aprovada para um doutorado sanduíche da Comissão Fulbright. Ela iria para Universidade da Califórnia em Irvine (UCI), nos Estados Unidos. Com um pequeno detalhe: ela deveria começar exatamente no mês em que chegaria o seu filho Pedro Henrique:

“A bolsa deveria durar 9 meses, começando em setembro de 2018, mas tanto a minha orientadora na UCI como a Comissão Fulbright Brasil foram super compreensíveis e permitiram que eu começasse em janeiro de 2019. O Pedro nasceu em 17 de setembro de 2018 e tivemos tempo, após o nascimento dele, para providenciar toda a documentação para a viagem”.

A decisão sobre a flexibilização do período da bolsa de 9 para 6 meses foi inédita. No entanto, isso demonstra que algumas instituições estão dispostas a analisar caso a caso e não dificultar as coisas para mulheres com filhos – pelo contrário.

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Planejamento financeiro é fundamental ao estudar fora com filhos

E, assim, quando Pedro tinha 3 meses de idade, a Keyla embarcou com ele para participar do programa Dissertation Research Award. Essa bolsa da Comissão Fulbright – como, infelizmente, a maioria dos casos – não prevê auxílio para dependentes. Sendo assim, para conseguir ir com um bebê, ela e o marido tiveram que se organizar muito bem financeiramente:

“Não foi fácil com o real tão desvalorizado, mas eu já tinha o desejo de fazer o doutorado sanduíche desde o início do curso, e meu marido e eu já estávamos nos preparando há algum tempo. Isso é muito importante, pois é preciso comprovar para a instituição que concede a bolsa que se tem renda suficiente para as despesas dos dependentes”, alerta Keyla.

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Keyla, Pedro Henrique e o marido/Arquivo Pessoal

Para conseguir realizar suas atividades na universidade americana e escrever a sua tese, Keyla contou com o apoio do marido. Segundo ela, ele abraçou o desafio e largou tudo no Brasil para ficar com o bebê. Isso tornou a experiência financeiramente viável, já que uma creche na cidade onde moraram custa em média 2 mil dólares.

“A universidade tem uma creche para filhos de funcionários, mas, além de cara, tem uma lista de espera enorme. Sei também que ela dispõe de uma sala para mães que precisam tirar leite. Não precisei usar, pois eu usava uma sala no prédio onde ficava o meu escritório. Muitas das minhas colegas eram mães e também faziam o mesmo”, relatou.

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Graduação e mobilidade acadêmica com filha pequena

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Jacqueline e Ana Luísa/Arquivo Pessoal

A história da Jacqueline Mendes Correia é um pouco diferente. Ela é graduanda em Administração Pública na Universidade Federal Fluminense (UFF). A sua filha Ana Luísa tem 2 anos e frequenta as salas de aulas desde que tinha 5 meses:

“Sou mãe solo e minha família, que poderia ser minha rede de apoio, não mora na mesma cidade que eu, então resolvi encarar os preconceitos, a falta de apoio institucional e todos os desafios de ter uma criança dentro da sala de aula para que eu possa me graduar”.

Jacqueline faz parte de um laboratório que desenvolve uma pesquisa com foco no tema das políticas de inserção da mulher na graduação. Ela contou para o Partiu Intercâmbio que enfrentou muitos obstáculos em função de ser mãe e universitária: “Já fui colocada para fora da sala de aula por um professor, já fui “convidada” a fazer uma disciplina em modo semi-presencial. Também não sou chamada para os encontros de alunos e poderia relatar muitas outras situações”, afirma.

Contudo, mesmo diante dessas dificuldades, ela decidiu se candidatar para o programa Ibero-Americano do Santander. A bolsa de mobilidade acadêmica tem duração de 6 meses e Jacqueline foi para a Universidade da Coruña, na Espanha, em agosto deste ano.

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Ações para arrecadar dinheiro para viajar

O benefício do Santander também não se enquadra na categoria de bolsas para mães na qual os dependentes estão incluídos. Não tendo ajuda para cobrir os custos da criança, além de poupar dinheiro, Jacqueline contou com a ajuda de amigos para promover ações para arrecadar o valor necessário. O seu objetivo era garantir que a filha tivesse no mínimo a mesma estrutura que tinha no Brasil.

“Fiz bazar de roupas usadas, venda de doces, bingo, rifa e uma feijoada beneficente. Além disso, fui até a Câmara de Vereadores da minha cidade solicitar que exista políticas públicas de apoio às mães, uma vez que não temos nenhum suporte para nos mantermos dentro da universidade. Isso faz com que muitas mães desistam de suas graduações”, comenta.

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Como se organizar para estudar fora com filhos

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Jacqueline e Ana Luísa/Arquivo Pessoal

Tanto Keyla quanto Jacqueline destacaram a parte financeira como um dos grandes desafios de fazer intercâmbio com filhos. No caso das duas, que não receberam bolsas para mães, o planejamento foi fundamental para juntar dinheiro antes de partir.

No entanto, há outros detalhes importantíssimos a serem levados em consideração ao procurar bolsas para mães e morar no exterior com crianças. Para Jacqueline, o fato de ser mãe pesou muito na escolha do local de destino. Por isso, além da análise da qualidade da universidade, ela também avaliou outros “requisitos” para garantir que Ana Luísa tivesse a melhor experiência possível.

“Antes de me candidatar pensei na estrutura da cidade, se ela teria escola pública pra minha filha, qual a qualidade dessa escola, se os horários eram compatíveis com os da Universidade, quais direitos ela teria no país sendo filha de estudante, quais espaços de lazer para as horas vagas, como é a qualidade de vida com pouco dinheiro”, explica Jacqueline.

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Educação, saúde e documentação merecem atenção

Garantir que a criança tenha acesso à educação e procurar meios de assegurar que ele tenha uma boa adaptação no novo contexto são preocupações presentes na busca por bolsas para mães. Dependendo da idade, vale inclusive investir em um curso de idiomas para o filho antes da viagem. Alguns países como os EUA têm a opção de escolas bilíngues, mas nem sempre é assim.

No caso da Keyla, que tinha um bebê de três meses quando foi para o doutorado sanduíche, a questão da saúde e do acompanhamento médico mereceu atenção especial. “Pesquisei hospitais e o calendário de vacinação para que ele pudesse continuar as imunizações que recebeu nos primeiros meses de vida no Brasil”, afirma.

Além disso, não dá para esquecer da parte burocrática: crianças também precisam de documentação para morar fora do país. Portanto, é necessário tirar passaporte também para o pequeno e se informar sobre como obter o visto também para ele.

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Conselho para mães que desejam fazer intercâmbio

Como não poderia ser diferente, além de pedir para compartilharem um pouco da sua experiência, também perguntamos para Keyla e Jacqueline qual o conselho que elas dariam a mães que desejam fazer intercâmbio com filhos. A resposta das duas foi a mesma: “Não deixem de ir!”:

Keyla: “Acredito que, como mãe, sou exemplo em tudo para o meu filho e isso me motiva a melhorar quem eu sou a cada dia. A experiência de estudar fora é algo que nos enriquece profissional e pessoalmente, então, não desista por ter filhos, mas exatamente por eles persiga os seus sonhos”.

Jacqueline: “Eu diria para as mães que não desistam, algumas mulheres nem se candidatam às vagas, se limitando porque são mães. Pensem que seus filhos devem ser motivo de força e não de limites, não é justo com a criança ser o motivo da mãe deixar de realizar um sonho. Assim como o intercâmbio é uma experiência muito rica para um adulto, também será para criança: ela vai ter contato com uma nova cultura, vai aprender no dia a dia a conviver com diferenças sociais, independente da idade vai aprender uma nova língua, entre muitos outros benefícios. Se você é mãe, sonha em fazer um intercâmbio e acha que não pode porque tem filho, reedite essa ideia, você pode sim, você deve ir, vai ser maravilhoso para ambos.”

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