"Mulher, negra, criada numa comunidade no RJ" e bolsista do Chevening
Nathalia Ribeiro bolsista Chevening

Nath comemorando a conquista (Fotos: Arquivo pessoal)

“Mulher, negra, criada numa comunidade no RJ, profissional da saúde”, essa foi a forma como a Nathalia Cristina Ribeiro se descreveu ao contar sobre a sua aprovação no Chevening em um post no seu Instagram. O programa de bolsas para mestrado é o mais importante do Reino Unido. A Nathalia se preparou por um ano para se candidatar, enfrentou mais de 60 mil candidatos do mundo inteiro, e deu certo: agora ela é uma “chevener”.

Bolsas para estudar no Reino Unido

Como muitos outros lugares no Rio de Janeiro, São Gonçalo, infelizmente, costuma aparecer no noticiário apenas como palco de operações policiais e acontecimentos tristes. A história do menino João Pedro Mattos, de 14 anos, que foi assassinado dentro de sua casa durante uma operação policial é um dos mais recentes.

No entanto, o município, segundo maior do Estado, também é a cidade da Nath, que cresceu no Complexo de Mutuapira. Em outubro, a farmacêutica parte para Inglaterra para fazer mestrado em Health Care and Social Management and Policy (Política e Gestão Social e de Saúde), na London Metropolitan University, com tudo pago pela bolsa Chevening.


Além do fato da seleção da Nath estar relacionada com o Partiu Intercâmbio — ela descobriu a oportunidade por meio do site e fez mentoria com a Bruna —, a sua história e o caminho que ela está trilhando são inspiradores demais para gente não dividir com o mundo todo!

A formação em enfermagem e farmácia: como tudo começou

Eu sou de uma comunidade de São Gonçalo. Meu início na área da saúde foi aos 15 anos, fiz técnico de enfermagem junto com o Ensino Médio. Então, eu estudava pela manhã na escola, em algumas tardes tinha aulas do curso e em outras estágio. Assim que terminei o colégio, entrei em uma universidade particular, já que para muitos brasileiros que estudam em escola pública é muito difícil passar no ENEM.

Durante o meu estágio no Hospital Central de São Gonçalo, vi que a situação da saúde no país é muito complicada, que faltavam muitas coisas. Presenciei um paciente sentir muita dor e não termos pomada para passar nas suas queimaduras. Por isso, eu não quis seguir na enfermagem e decidi estudar farmácia. Comecei o curso e tive que começar também a trabalhar em uma clínica particular, porque nós brasileiros temos que trabalhar pra vida se mexer, né?

Depois de cinco anos, acabei a faculdade e fui trabalhar em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Entrei como farmacêutica trabalhando o todo o dia, virei plantonista e, mais tarde, supervisora da unidade. Lá a gente fez muita diferença, fomos a primeira UPA a receber caso de febre amarela, trabalhávamos com Profilaxia Pós-Exposição de Risco (PEP), com pessoas expostas à violência sexual.

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Com os colegas de trabalho

O incentivo da dona Cristina: o que fez a diferença

Eu vou te mandar uma foto da minha vó. Ela teve mais de 50% do corpo queimado em um acidente na infância, então ela é debilitada e, várias vezes, eu saía do colégio para ajudar ela em casa. Eu fui criada numa comunidade e muitos amigos do meu irmão morreram, muitos entraram para o tráfico, todas as minhas amigas com 15 anos estavam grávidas.

Eu fui criada pelos meus avós, meu avô era carteiro e minha avó mal sabe ler e escrever. Nunca nos faltou comida, mas meu avô ‘se matava’ para que pudéssemos ter acesso às coisas.

O que fez grande diferença na minha educação foi que eles nunca limitaram meus sonhos, eles sempre me impulsionaram e incentivaram tudo que eu quis estudar. Era tipo assim ’olha, vai faltar carne no fim do mês, mas vamos dar um jeito de pagar o curso técnico de enfermagem pra você’.

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Agarrada na dona Cristina, com a família

Apesar de toda a humildade, minha avó mostrava os caminhos pra gente, ela perguntava: ‘Você quer ser igual ao fulano? O que você quer ser?’. Quando se é criado em uma comunidade, você vê muitas coisas: a vida fácil no tráfico, a cultura da sexualidade na adolescência. Mas a minha família bancava meus sonhos.

É claro que eu tive que correr muito atrás, porque pra quem vem de uma comunidade é tudo mais difícil.

Eu lembro que, com 15 anos, eu saía de casa às 6h30 e voltava às 20h. Com 19, eu saía às 6h e voltava às 23h. Mas os meus avós falavam pra mim que meus sonhos podiam ser alcançados, que eu iria ser quem eu quisesse. Isso pra mim foi a base. Eu lembro da minha avó me contando a história de um juiz que tinha sido catador de latinha, algo assim, justamente pra me mostrar que eu podia ser quem eu quisesse.

>>> Bolsista dá dicas sobre o processo de seleção Chevening

A vontade de fazer mais: como surgiu o desejo de se candidatar ao Chevening

As pessoas não sabem o quão maravilhoso é o SUS. Faltam muitas coisas, mas ele é muito bom. Assim que eu entrei na UPA, eu consegui fazer algumas mudanças ao meu redor e eu sentia que tinha que fazer mais. Comecei a perceber que precisava alcançar mais pessoas e que o inglês seria essencial pra minha vida.

Então eu juntei um dinheirinho e saí da UPA pra ser Au Pair nos Estados Unidos [programa para adquirir fluência em um idioma estrangeiro trabalhando com crianças e convivendo com uma família]. Esse é o tipo de intercâmbio mais barato que tem e achei que seria a forma mais rápida de aprender inglês. Fiquei lá por um ano (setembro de 2018 a setembro de 2019), estudei muito e meu inglês realmente avançou rápido. Durante o período em que estava lá, em agosto de 2019, eu conheci o Partiu Intercâmbio. Vi a Bruna falando que os programas eram voltados para pessoas com perfil de liderança e disse ‘liderança é comigo mesmo!’, afinal eu tive a experiência da UPA, eu fazia acontecer.

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Durante o Au Pair nos EUA

Fiquei sabendo sobre o Chevening e pensei que era pra mim e que eu poderia unir isso com o meu desejo de mudar o SUS.

Aí veio a vontade de fazer o mestrado, porque o nosso sistema de saúde foi baseado no National Health Services (NHS), o serviço nacional de saúde do Reino Unido. O SUS é mal gerenciado, a gente aplica as coisas de forma errada, tem muito para ser melhorado, investir pesado na atenção primária pra não gastar tanto com a terciária, por exemplo.

>>> Como ganhar uma bolsa Chevening?

A preparação e os desafios: como foi a candidatura

Eu sabia que precisaria de ajuda para me candidatar para ser bolsista do Chevening, então falei com a Bruna. Para mim, o mais difícil do processo inteiro não foi escrever as cartas. A gente faz saúde com muito pouco no Brasil, quando não tinha suporte para respirador, a gente dava um jeito com um cadarço. Contar essa história não foi difícil e a Bruna me ajudou a deixar no formato de ‘essay’ que eles exigem. Eu pedi cartas de recomendação, uma para um professor e outra para o meu ex-chefe, que foi quem me promoveu e viu esse potencial de liderança em mim e, assim, eu fui a supervisora mais nova da UPA.

Nathalia Ribeiro bolsista Chevening foi mentorada pela bruna passos amaral do Partiu Intercâmbio

Quando a Nath e a Bruna se encontraram pessoalmente

Já a barreira do inglês foi muito grande, eu tive que fazer o TOEFL mais de uma vez. É injusto, porque a gente compete com pessoas que estudaram a vida toda em escolas bilíngues. Eu aprendi inglês com 24 anos, não sabia escrever em inglês até o ano passado. Com a experiência nos EUA, meu listening e speaking eram muito bons, mas o reading e o writing eram ruins, porque era o que eu menos usava. Eu aprendi inglês porque eu corri atrás, mas a verdade é as pessoas não tem acesso, eu não conheço ninguém na minha comunidade que fala inglês.

>>> Respostas para dúvidas sobre o application da bolsa Chevening de mestrado no Reino Unido

A entrevista do Chevening: por que é importante respeitar a própria história

Eu falo muito, não sei se deu pra perceber (risos), mas eu estava com muito medo da entrevista do Chevening. Quando eu e a Bruna treinávamos, eu ficava travada na frente dela. No fim, não sei bem o que aconteceu, mas foi! Não posso falar que foi fácil, mas ninguém sabe mais sobre você do que você mesmo. Eu falei sem parar, contei a minha história, falei sobre saúde pública, expliquei o que eu achava que precisava mudar. Eles me deixaram muito à vontade.

Eu falei que com 15 anos saía de casa de manhã cedo e voltava à noite, que eu administrei minha vida muito bem e, mesmo sendo negra e tendo sofrido racismo, eu estou aqui — lutei e estou lutando.

Fui vendendo o meu peixe, era a única oportunidade que eu tinha. A Bruna sempre falava ‘Respeita a tua história. A outra pessoa fez isso e aquilo, mas a história dela é diferente da tua”. Então, eu acho que você tem que explicar de onde veio e onde quer chegar.

>>> Dicas para entrevista do Chevening

Eu sou mulher, sou negra, se eu fosse homem e loiro seria tudo mais fácil (o que é péssimo!), mas eu não deixei a peteca cair. Eu tenho a autoestima muito alta, penso ‘vamos lá que eu sou maravilhosa, e, se não der, a gente tenta de novo!’.

O pesadelo do TOEFL: afinal, tem que ter emoção, né?

A entrevista foi mil vezes mais fácil que o TOEFL para mim. O TOEFL foi muito complicado, no terceiro que eu fiz me faltou 1 ponto no reading para passar. Acho que eu ficava muito nervosa, porque essa era a primeira parte do exame. Isso me derrubou, eu chorei muito e queria desistir. Mas conversei com a Bruna e com outras pessoas que me incentivaram. O feedback da minha entrevista tinha sido muito bom, a gente sabia que eu tinha passado, só faltava o TOEFL. Até que eu pensei ‘quer saber, vou tentar mais uma vez!’.

Fiz a última prova no dia 1º de julho e o deadline para entregar o aceite incondicional da universidade para garantir minha vaga de bolsista do Chevening era 16 de julho. Pensa? Foi muito tenso, mas no fim deu tudo certo, era pra ser!

O mestrado e as perspectivas: para melhorar a saúde pública do país

Vou fazer Health and Social Management and Policy, na London Metropolitan University. Foi a minha primeira opção, porque essa universidade é diretamente ligada ao NHS e eu quero muito aprender como eles entregam uma saúde com mais qualidade do que a nossa. A gente, com pouco, já faz tanto, então eu quero aprender quais políticas eu posso criar para gerenciar melhor o SUS, como podemos fazer ações voltadas para diferentes populações, por exemplo.

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Nath em ação no laboratório

Na entrevista do Chevening, me perguntaram onde eu me via daqui a dez anos e eu falei ‘vou ser ministra da saúde’. Falei mesmo que daqui a dez anos eu estaria no Ministério da Saúde, porque eu acredito na saúde e no SUS e acredito que a gente pode fazer muito para melhorar o sistema. Seria muito lindo, né? Uma mulher negra, criada em uma comunidade carente chegar a um cargo alto.

É representatividade, a gente quase não vê histórias de pessoas assim. Existe muito preconceito, muito racismo na sociedade. Se um dia eu chegar em um cargo desses, quero que o meu povo pense ‘uma de nós conseguiu!’. Então, o meu intuito é aprender e tirar o máximo do mestrado, me tornar uma boa líder, uma boa gestora na área da saúde. Eu quero fazer acontecer olhando para população que mais precisa.

>>> Saiba tudo sobre o Chevening

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