FLTA na Towson: Um mini intercâmbio no intercâmbio nos EUA

O programa FLTA (Foreign Language Teaching Assistant)  oferece a oportunidade para 20 professores brasileiros irem aos Estados Unidos ensinar português por dois semestres letivos. À primeira vista, seria também uma ótima oportunidade para fazer um sub-intercâmbio, visitando os colegas nas outras universidades americanas. O problema é que, da mesma forma que o Brasil, os EUA são um país de dimensões continentais, e para nós fazermos um intercâmbio interno teríamos que contar com uma proximidade geográfica, além de disponibilidade de horário, de transporte, de dinheiro e de hospedagem, entre outros fatores.

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Neste ano, a maioria dos 20 professores está trabalhando na costa leste (eu, entre eles). O lado bom é que isso facilita a possibilidade de fazer uma visita, algo que fiz semana passada. Eu queria, contudo, que isso fosse além de uma viagem turística. O mini-intercâmbio deveria ser profícuo tanto para nós quanto para os alunos de português de ambas as instituições, os possibilitando ter contato com outro professor brasileiro, com uma bagagem cultural diferente, que pudesse somar no processo de ensino/aprendizado. Desse modo, convidei o Raul, FLTA na Dickinson College, para fazer uma fala aqui na Towson e, na sexta, eu fui para a universidade dele. Fizemos uma espécie de troca de aulas. O tópico que Raul escolheu foi uma apresentação de seu estado natal, Mato Grosso do Sul. Já eu escolhi falar sobre o Rio Grande do Sul.

Entrada da Dickinson College

Diferenças entre as universidades dos colegas FLTA

A Dickinson College está localizada em Carlisle, cidade de mais ou menos 20 mil habitantes, localizada no sul do estado da Pensilvânia. Tive que pegar dois ônibus para chegar lá: um de Baltimore até Harrisburg (capital do estado); e outro de Harrisburg até Carlisle. Contando o tempo de baldeação, a viagem demorou um pouco menos que 4 horas.

A Dickinson College é bem diferente da Universidade de Towson. É uma instituição privada, que conta com 2119 alunos matriculados no ano de 2019. Inaugurada em 1773 como Carlisle Grammar School, a instituição só recebeu o seu nome definitivo em 1783. Dickinson College é o primeiro college fundado nos Estados Unidos depois da declaração da independência.

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O campus, apesar de ser localizado em uma região central da cidade, possui um quê rural, relativamente pequeno e muito arborizado. A arquitetura é quase um estereótipo de uma universidade antiga norte-americana: prédios cinzas construídos com pedras de calcário, além de vistosas colunas ao estilo grego. Mas a marca mesmo da Dickinson são cadeiras vermelhas (a cor da instituição) espalhadas ao longo do campus. Nas fotos institucionais nos corredores dos prédios elas se fazem mais presentes que o próprio mascote, um diabo vermelho.

Fingindo não passar frio nas cadeiras vermelhas

Sobre as aulas de português, aí sim, a Dickinson parece com a Towson. Comparado às outras línguas estrangeiras, o Português é uma disciplina que não tem tanto protagonismo e conta com poucos alunos. Ainda assim, há constantes eventos abertos ao público para difundir a cultura brasileira. Aliás, eventos é o que não falta na Dickinson. Todos os dias há várias opções (e – melhor – quase todas com comida), inclusive no fim de semana. Por ser uma cidade pequena, a alta frequência de eventos permite uma comunhão entre o grupo de estudantes.

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Na minha aula sobre o RS, falei como o estado se afasta um pouco da imagem tropical estereotipada do Brasil, embasando-me em aspectos históricos, linguísticos, geográficos, sociais, artísticos, culturais, entre outros. A professora titular da disciplina (na Dickinson o FLTA, diferente da Towson, é um professor assistente e não é responsável por turmas), é colombiana, mas morou em Porto Alegre. Por isso, os alunos já tinham uma noção básica da localização do estado e alguns aspectos culturais. A aula foi ótima, com muitas perguntas e comentários por parte dos estudantes. Porém, a dança dos facões e a música tradicionalista gaúcha não fizeram sucesso: “Prefiro feminejo!”. Aproveitando a minha estadia, participei também da sessão do filme “Que Horas Ela Volta?”, seguida de uma discussão. Coincidentemente, eu já tinha exibido esse filme aqui na Towson, e foi curioso notar que algumas impressões e comentários feitos pelos alunos da Dickinson foram similares aos dos meus.

A sessão foi na própria casa de línguas românicas, lugar onde mora o Raul, já que a hospedagem do FLTA da Dickinson é inclusa na bolsa. Ele divide a casa, com professores assistentes e estudantes internacionais de espanhol, italiano e francês. Foi nessa casa que, através de argentinos, saciei minha vontade de três meses de tomar um mate.

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Além da hospedagem, a Dickinson garante também um plano de alimentação para o FLTA, no refeitório da universidade. Ele abre três vezes por dia de segunda a sábado; e duas vezes ao domingo. O esquema para servir-se é o de ilhas, contando com ilha de saladas, ilha de massas, ilha de café da manhã, ilha de pratos quentes, ilha de sobremesa, entre outras. A Dickinson preza muito pela sustentabilidade, e um fato interessante é que parte dessa comida vem direto da fazenda gerida pela universidade, na qual, também me voluntariei para trabalhar nesse fim de semana. As sobras de comida, da mesma forma, voltam como alimento para os animais da fazenda.

Eu e Raul passamos uma tarde na fazenda da Dickinson. Aqui nos Estados Unidos é muito comum a prática de trabalho voluntário na comunidade, e, especificamente nessa fazenda, muitos alunos se voluntariam. As atividades que fizemos foram organizar o feno no celeiro, dar comida para as vacas, colher cenouras e ajudar a delimitar a cerca das ovelhas. Tudo isso num frio de 2 graus Celsius.

Esse fim de semana em Carlisle foi ótimo por dois motivos. Primeiro por termos feito um intercâmbio dentro do intercâmbio; e, segundo, por contribuirmos difundindo um pouco da cultura brasileira, ampliando horizontes de alunos de duas instituições. Afinal, espera-se que os FLTAs sejam embaixadores culturais.

O imponente Old West: o primeiro prédio do campus da Dickinson.

 

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Ciclo de cinema

No início do mês fiz minha terceira sessão de cinema na Universidade de Towson, com o filme Boi Neon. Surpreendentemente, apenas com a divulgação por panfletos no prédio do College of Liberal Arts, o auditório lotou. Apesar de ter alguns alunos presentes, eu não conhecia a maioria dos espectadores.

A discussão durou quase hora, e o que mais me chamou a atenção foi que o público ficou chocado com o fim do filme. Uma aluna até comentou: “Finais felizes é coisa de americano”

 

Rolê acadêmico aleatório

Semana passada, na aula de Geografia do Blues e Rock ‘n’ Roll, tivemos uma palestra com um Steve Kraemer, professor de currículo inusitado. Ele é doutor em astrofísica extragaláctica e chefe do departamento de pesquisa da Catholic University of America, em Washington. Ex-engenheiro da NASA, seu foco de pesquisa são buracos negros. Ainda, nas horas vagas, é guitarrista de blues. No ano que vem ele vai trabalhar em Bento Gonçalves, mas não tive tempo de perguntar com o que, nem o porquê.

Mas, enfim, a palestra foi sobre a evolução da guitarra no blues, de Blind Lemon Jefferson a B. B. King. A propósito, a fala foi excelente.

 

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Sobre o Autor:

 

João Pedro Amaral é professor de inglês e literatura em Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul. Seu projeto de letramento audiovisual para alunos de escolas públicas foi vencedor do 11o prêmio professores do Brasil na categoria ensino médio da região sul do Brasil e o levou para conhecer o sistema de educação no Canadá. Em 2019/2020, João vai passar um ano letivo dando aulas de português na Towson University, nos Estados Unidos, com bolsa do programa FLTA da Fulbright.

 

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