FLTA na Towson: Um morador de Baltimore - Partiu Intercâmbio

Qual a diferença entre morar e ser um morador da cidade? Em outras palavras, o que nos torna um cidadão de uma lugar e não apenas um número no Censo demográfico? Uns afirmam, taxativamente, é que o fator determinante é o tempo: “precisamos de dois anos (dois meses?) morando em uma cidade para nos tornarmos cidadãos”. Outros, seguindo um viés jurídico, argumentam que precisamos ter comprovante de residência e pagar impostos municipais para tanto. Há, ainda, quem diga que isso é questão geográfica: “se sabemos nos locomover e ir onde quisermos, somos cidadãos desse lugar”.

Eu discordo das três teses. Ora, o tempo é relativo e o psicológico não se alinha com o cronológico. Então, sua percepção é individual e intransferível. Podemos também ter comprovante de residência, pagar impostos, mas estarmos ausente na cidade. E, com aplicativos de localização, qualquer forasteiro pode se locomover por onde quiser. Se bobear, alguém no Uzbequistão consegue se locomover em Porto Alegre através do Google Maps melhor que muitos gaúchos.

Minha teoria é que nos tornamos cidadãos quando conseguirmos ir sozinhos à feira dos produtores locais. Isso implica vários fatores. Conseguir se locomover na cidade, interagir com os mais diversos moradores, comparar os preços produtos locais para a sobrevivência, ajudar os produtores locais e conhecer os horários de funcionamento de eventos e lugares públicos. Segundo essa lógica, me tornei um cidadão aqui da região de Baltimore no domingo passado, quando fui no Baltimore Farmers’ Market & Bazar.

A feira acontece nos domingos das 7h às 12h. Durante parte do outono e o inverno, a feira não acontece.

As feiras são locais de resistência. Comidas comercializadas fora da lógica de grandes companhias, expressões artísticas das mais diversas, música ao vivo, protestos, enfim, talvez a mais genuína comunhão popular. As feiras afloram nossos sentidos. Impossível não se hipnotizar com as cores, os cheiros, e os ritmos das pessoas andando sem compromisso por entre as tendas em um domingo de manhã.

Quando estou em uma feira, costumo observar qual o lugar em que há mais fila. É lá que vou comprar comida. No caso da feira de Baltimore, além de algumas frutas e verduras, comi cogumelos fritos com salada e rosquinhas com cobertura infinita.

 

Lanche mais popular da feira. Cogumelos fritos com queijo e folhas verdes. Ao fundo, as rosquinhas com cobertura infinita. Como podem ver, não me controlei e comi o doce antes do salgado.

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Pena que descobri que a feira não abre durante o fim do outono e o inverno. Essa atividade já está incorporada à minha rotina. Aliás, essas primeiras semanas como FLTA em uma cidade americana são importantes para observar o que as pessoas fazem e, então, incorporarmos aos nossos hábitos. É aristotélico: a imitação é intrínseca ao ser humano. Outro exemplo é a estação de rádio da Universidade de Towson que as pessoas aqui de Baltimore escutam. Como ouvinte constante de música e notícias, a WTMD está diariamente sintonizada aqui em casa. Como é uma rádio pública, eles não tem compromissos com músicas comerciais, então tocam o que querem, além de promover artistas locais. Aliás, semana passada quase ganhei um ingresso para uma palestra da Patti Smith: a sétima ligação ganharia, mas fui o sexto. Além de música, periodicamente a rádio traz boletins de notícias. O problema é que já cansei de passar vergonha ouvindo os comentários sobre as declarações do Bolsonaro sobre a Amazônia, e a possível nomeação de seu filho como embaixador dos EUA.

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18th Pigtown Annual Festival

Dia 21 de setembro aconteceu o Pigtown Annual Festival. Muito parecida com uma feira, este é um festival do bairro homônimo de Baltimore. A atração principal são os pig races, circuito de corridas de porcos nas ruas. Divididos em categorias pela suas espécies, cada corrida acontece com 5 porcos por vez. Um animador fica entretendo o público, apresentando-os com nomes inusitados como Lady Hog-a ou Cardy Pig. Antes de cada corrida, o apresentador escolhe aleatoriamente um espectador para representar cada porco: e o vencedor ganha um brinde (ou um balão em forma de porco, ou um porco de pelúcia, entre outros).

O evento, que durou uma tarde toda. A rua local de Pigtown foi fechada para isso, e muitos comerciantes locais estavam expondo seus produtos: roupas, comidas, calçados, velas, artesanato, quadros, cannabis medicinal, bijuteria, etc. Em uma rua paralela, havia um espaço para crianças, com jogos, brinquedos e pintura facial. Enfim, um festival para moradores.

No entanto a atividade mais engraçada foi o concurso de comer torta (Pie Eating Contest). A disputa ocorria periodicamente entre quatro pessoas. Depois do sinal, elas tinham que comer um generoso pedaço de torta de mirtilo usando apenas uma das mãos (a outra tinha que estar nas costas). Feita com uma massa podre fininha e muito creme de leite (whipped cream), o intuito do concurso era se sujar. A primeira pessoa que engolisse tudo, ganhava um brinde. É claro que participei, mas infelizmente tinha alguém mais viciado em doce que eu. A propósito, a torta estava excelente.

A animação do festival ficou por conta de três atrações musicais: a banda de blues Ursula Ricks Project, a banda de ska The Schotch Bonnets e a Rufus Roundtree and Da B’More Brass Factory, que criou o “Balti Grass”, um gênero próprio. É incrível como, aqui em Baltimore as pessoas tem um senso de pertencimento muito forte (comparação oportuna na Semana Farroupilha?). Várias tendas com camisetas levantando a bola da cidade. Em alguns bancos, há a inscrição: “Baltimore, the greatest city in America”. Todas as bandas elogiaram muito os cidadãos da cidade. Um integrante da The Schotch Bonnets chegou a falar que, apesar de ter rodado o mundo, “nunca tinha visto uma cidade com tamanha alma e tamanho coração como Baltimore”. Minha supervisora, que nasceu em Iowa, disse que uma cena pra ela define as pessoas de Baltimore é uma do filme O Preço da Fama, do diretor local John Waters, em que uma mulher volta a Baltimore, desce do ônibus e a primeira coisa que ela faz é beijar o asfalto.

Esses hábitos que estou adquirindo de cidadãos daqui de Baltimore me faz entender na prática como funciona as entranhas da cultura local. Pode até parecer que essa coluna está deslocada das outras, o que não é verdade. Os FLTAs são considerados embaixadores culturais. Ou seja, ao mesmo tempo que temos que entender profundamente e difundir nossa cultura, precisamos de uma experiência de imersão em uma cultura diferente da nossa para que haja esse intercâmbio, dinamismo e difusão de informações. A transculturalidade consiste na capacidade de integrar diferentes culturas. E como fazer isso sem a observação, a participação, a imersão e a criação de novos hábitos a partir do que a comunidade local está fazendo? O programa FLTA é muito mais que as aulas.

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Pequenas alegrias

Em uma das minhas aulas de português básico, especificamente no conteúdo de nacionalidades, uma das minhas alunas perguntou como se chamava alguém que nascia, como ela, na Guatemala. Felicidade instantânea. Era como se ali estivesse a minha chance inédita de usar a fórmula de Bhaskara pra resolver um problema prático. Sabendo que era inútil (e agora provou-se o contrário) eu adorava decorar os gentílicos das primeiras páginas de um dicionário Luft carcomido. Assim, respondi de pronto para a aluna, com empolgação nas minhas cordas vocais: guatemalteca.

Mais sobre as aulas só no próximo post.​

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Sobre o Autor:

 

João Pedro Amaral é professor de inglês e literatura em Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul. Seu projeto de letramento audiovisual para alunos de escolas públicas foi vencedor do 11o prêmio professores do Brasil na categoria ensino médio da região sul do Brasil e o levou para conhecer o sistema de educação no Canadá. Em 2019/2020, João vai passar um ano letivo dando aulas de português na Towson University, nos Estados Unidos, com bolsa do programa FLTA da Fulbright.

 

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