Como sentir saudade de outra cidade

Home is where your heart is <3 ilustração: Caio Ramos

Home is where your heart is <3 . Ilustração: Caio Ramos

Quem nunca passou noites e noites olhando fotos antigas e relembrando um passado recente em algum lugar distante talvez não entenda esse post. Em algum momento de 2012, no auge da minha profunda e intensa saudade de Berlim, esbarrei com o texto How to Miss Another City (Como Sentir Saudade de Outra Cidade) no Thought Catalog. Os apaixonados por algum lugar no mundo sabem exatamente o que  isso quer dizer: um manual sobre como se torturar sentir falta de um lugar onde você não está. Revirando links antigos, fui parar nele de novo e tive a sensação de que faria muito sentido de postar aqui.  Afinal, acho que é meio recorrente em quem viaja bastante amar tanto uma cidade a ponto de considerar ela a sua cidade. Eu já disse aqui que viajar pra se encontrar não existe, mas alguns lugares ajudam a despertar o melhor da gente. É bem real. O importante é aprender a levar um pouco desse “melhor” também para casa 😉

Como não achei uma tradução, fiz uma tradução-versão-chamem-como-quiserem do original. Vai aí a receita de “Como Sentir Saudade de Outra Cidade

“Passe uma noite inteira acordado passeando pelas suas fotos daquela época, olhe para cada uma por cinco, dez minutos, tentando se lembrar de cada detalhe o máximo que você puder. Sinta todo seu corpo doer, enquanto você pensa em como a comida cheirava nas ruas movimentadas, na forma como o vento soprava o suficiente para balançar a bainha da sua camisa, na forma como as pessoas ao seu redor pareciam dobrar-se confortavelmente como um cobertor quente. Lembre-se de se sentir em casa, mesmo que você não estivesse.

Veja outras pessoas que vão viajar para sua cidade amada e deixe comentários como “que inveeeeja”. Diga daquela maneira ~irreverente~ da internet do tipo na-verdade-não-estou-com-ciúme, mas sinta uma profunda inveja da sorte que eles têm por estar indo. Tenha aquela leve impressão de que eles não dão o devido valor ao fato de estarem indo para este lugar maravilhoso, que não é possível que eles saibam de todos os restaurantezinhos escondidos ou das belas persianas pintadas nas janelas das ruas mais reservadas e deseje que você pudesse fazê-los entender de verdade a sorte que têm. Só não queira fazer a viagem por eles mais do que você gostaria de poder ir junto, escondido em uma mala no trem de pouso para poder e levá-los por todos os lugares pelos quais você se apaixonou enquanto esteve lá, para fazê-los ver a cidade através dos seus olhos.

No seu tempo, livre sacie-se com a leitura de tudo sobre a sua cidade, procurando sempre novas fotos. Olhe antigos redutos no Google Street View, lembre da forma como as folhas balançavam nas árvores no final de setembro. Perceba, com cada vez menos ironia , que você está realmente começando a considerar este lugar a SUA cidade. Em algum nível, você sente que tem uma conexão com ela que você não pode explicar totalmente, ela está na maneira que as solas dos seus sapatos se encontraram com o pavimento nas longas caminhadas que você fez durante a noite: só você e os becos vazios. Saiba que é ridículo considerar-se o proprietário de uma entidade tão grande e tão democrática quanto uma cidade em si, seja, no entanto, um defensor – como só uma mãe ou melhor amigo podem ser – quando você ouvir alguém falar negativamente dela.

Deseje com todo seu coração ser novamente a pessoa que você era quando estava lá: alguém que andava pelas ruas com confiança e entusiasmo, parava para ficar bebendo vinho e ter uma boa conversa, comia muito e dormia tarde. Lembre-se do jeito que você costumava ter prazer de uma forma mais visceral, mais metódica: as coisas serem boas e você se sentir bem eram regras! Tudo era uma festa para os sentidos. Sinta-se apressado onde você está agora e tenha saudade profunda do tempo quando você era muito mais aberto a mudanças, animado e pronto para encontrar o que quer que encontrasse você. Saiba que você, tecnicamente, era a mesma pessoa na sua cidade, mas saiba também (em algum nível mais profundo) que você era uma versão melhor de si mesmo.

Gaste muito, muito tempo procurando por passagens para voltar o mais rápido possível. Pense constantemente  em todas as coisas que você poderia estar fazendo, nas coisas que você está perdendo, nas pessoas que estão crescendo, mudando e fazendo noites sem você. Sinta-se culpado pelo tanto que você pensa neste outro lugar, como se estivesse traindo sua cidade atual com uma bela ex com a qual não se pode competir. Economize tudo que puder, sempre pensando no momento em que o avião vai pousar e você estará de volta no código postal certo, onde você pode tirar o tédio e o desconforto da vida diária como um blusão que dá coceira. Anseie por andar nas mesmas ruas novamente, por sentir o cheiro fresco ar da manhã antes de todo mundo acordar que, para você, é tão puro que você sente poder até tocá-lo. Conte os dias até que você possa realmente estar de volta.

Saiba que, mais cedo ou mais tarde, você vai ter que voltar. Imagine o apartamento que você vai ter naquela parte perfeita da cidade, com o piso de madeira e o pé direto alto que você  imagina que vão  fazer o resto da sua vida muito melhor. Lembre-se que problemas existem em todos os lugares, até mesmo em sua cidade perfeita, mas você estará  muito mais preparado para enfrentá-los na localização geográfica correta. Por agora, no entanto, sinta tanta saudade da sua cidade que dói – romantize-a até que você possa vê-la em tons de rosa. Pense nisso antes de adormecer, enquanto estiver deitado na cama  e sempre, SEMPRE, esteja pronto para voltar.”

 

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Mais uma vez a ilustração do post é do queridíssimo Caio Ramos. Esse ilustrador talentoso e meu amigo se ofereceu para emprestar a lindeza dos trabalhos dele para o Partiu Intercâmbio! Sempre que der, os textos vão ter imagens pensadas por ele. Mais trabalhos do Caio vocês encontram aqui e aqui. Prestigiem :)

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