Universidade: precisa mesmo ser tão cedo?

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Foto: Cadinho Andrade/UFRGS, Divulgação

Foto: Cadinho Andrade/UFRGS, Divulgação

Sempre que sai o listão do vestibular da UFRGS (sou de Porto Alegre, então todo ano o listão de lá inevitavelmente pipoca na minha timeline nesta época do ano), vejo a coisa se dividir entre em duas turmas: os entusiasmados com as novidades que o ano de universitário terá e os que se sentem frustrados por não terem feito “um pouquinho mais”. Já estive nas duas posições e confesso que as múltiplas escolhas e a ideia de ter que me decidir por uma profissão “para sempre” apavoravam nessa época. Por isso, em 2003, no meio do terceiro ano, dei um jeito até arrumar uma oportunidade para fazer as malas e parti para um intercâmbio de um ano letivo na Alemanha.

A verdade era: eu não queria ter de escolher aos 16 anos. Por isso, no meu caso, o intercâmbio uniu o útil ao agradável. Lembro que muita gente perguntava: vai passar um ano fora, mas e o vestibular? Como se entrar na faculdade direto, depois do Ensino Médio, fosse a opção certa para todos os jovens. Ninguém gosta da frustração de estudar e não encontrar seu nome no listão. Mesmo que a gente, no fundo, até já saiba que não vai passar, o sentimento ruim é inevitável. Mas, na real, a grande verdade é que nem todo mundo sai do colégio pronto para encarar a faculdade e, quando me dei conta disso, no lugar de ser tomada pelo pavor das provas, “pulei na água fria”,  como se diz em alemão.

Na minha nova realidade, (que não foi nada fácil, eu não falava nada de alemão na época), encontrei uma escola que, além de ser em alemão, parecia uma faculdade: os alunos escolhiam no que queriam focar, e os professores mais instigavam a aprender do que mastigavam conteúdo. As provas eram sempre dissertativas, e as aulas cheias de discussões sobre as matérias. Aqui, o Ensino Médio é mais longo e, no final de tudo, ainda na escola, todos prestam o Abitur, provas cujas notas são usadas para se inscrever nas universidades.

Até 2011, os adolescentes eram obrigados a fazer serviço comunitário remunerado por um ano depois do Ensino Médio,  por causa disso, eram raríssimos os jovens que iam direto para a universidade na Alemanha, ou seja, gente com menos de 20 na Universidade era uma coisa rara. Depois de muita discussão e briga, não existe mais a obrigatoriedade, mas bastante gente ainda usa esse “ano social” como uma oportunidade e se candidata para fazer esse trabalho em outros lugares do mundo.

Não acredito que ter o governo obrigando a fazer qualquer coisa seja legal. Da mesma forma que não acho certo que deveria haver qualquer pressão social para passar no vestibular aos 16 anos. Universidade não é e nem deveria ser encarada como uma extensão da escola. Nela, o “vai cair na prova?” não pode ser a regra. Já que, pelo menos na teoria, lá é o lugar onde ninguém está porque é obrigado a estudar. O ambiente universitário deveria ser aquele em que finalmente se estuda mais por prazer e vontade de adquirir conhecimento do que “para passar”. O que acaba não acontecendo quando um adolescente sai do colégio, depois de anos “obrigado” a estudar e novamente se sente “obrigado” a entrar em alguma faculdade.

Justamente por isso, não passar no vestibular não é o fim do mundo. Às vezes, a gente precisa de tempo e amadurecimento para fazer escolhas conscientes e duradouras. Trabalhar, viajar, estudar outras coisas, dar um tempo antes de escolher é melhor do que cursar algo só para agradar alguém. A própria experiência e o auto-conhecimento que se adquire nesse tempo deixando as ideias ficarem claras pode não cair na prova, mas vai ajudar a encarar o vestibular de maneira menos traumática e, principalmente, a aproveitar a universidade ao máximo quando for a hora.

E vocês? Concordam? Discordam? É só dizer aí nos comentários que a gente conversa!

COMENTÁRIOS

8 respostas para “Universidade: precisa mesmo ser tão cedo?”

  1. Maila Cardoso disse:

    Já eu, estou contando os dias para entrar na faculdade.

  2. […] o vestibular, como fica?Eu já disse aqui em outras ocasiões que não sou a favor de entrar na universidade jovem demais, mas isso é uma opinião minha, né, […]

  3. Jady Gouveia disse:

    Oi Bru! Ótimo texto, vou indicar pra todos os meus amigos surtando com vestibular aí no Brasil. A minha decisão de vir pra cá e me formar mais tarde do que o resto da minha sala, além de entrar em um outro sistema de educação, causou muitas perguntas de “mas e o vestibular?”. A resposta é que vestibular não é o fim do mundo, e o aprendizado que esse tempo a mais vai me trazer vai me preparar melhor para o que quer que eu vá cursar mais tarde. Pra mim, foi a melhor escolha!

  4. Naiara Moura disse:

    Concordo plenamente! Estou prestes a me formar em jornalismo, aos 21 anos, e vejo que poderia ter amadurecido um pouco mais antes de iniciar a vida acadêmica.

  5. Ana Ribeiro disse:

    Eu concordo em alguns pontos, mas também acho que cada um tem o seu tempo. Por exemplo, eu desde sempre sabia o que eu queria fazer: ciência da computação. Sempre foi o que amei e o que queria aprender, e foi muito agoniante para mim ter que esperar alguns anos para poder cursar… Mas agora que curso, sou muito feliz. Mas eu compreendo que eu sou a exceção e não a regra. Talvez cada um devesse ir quando se sentisse pronto =)

  6. Laura Emilia Araújo disse:

    Me identifiquei com alguns trechos do texto, estou no segundo período de engenharia elétrica e ainda estudo só o que vai cair na prova, tenho maus hábitos do ensino médio técnico. Na minha turma a maioria tem 17 anos, sou uma das poucas pessoas fora dessa faixa etária.

  7. ERIKA disse:

    Nossa excelente texto, concordo plenamente com você, eu mesma optei por não ir para faculdade este ano, isso porque ainda não me decidi qual o curso que irei fazer. Por isso, tirei esse ano para pensar um pouco, e vejo com esse texto que não fiz a escolha errada.

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