Início » intercâmbio » Brasileiros em Helsinque contam como é estudar na Finlândia

Durante minhas três semanas na Finlândia ouvi muito sobre a educação e vida estudantil aqui, mas a verdade é que eu não posso falar muita coisa sobre isso, afinal, nunca estudei no país. Então para ter a opinião de quem sabe do assunto, conversei com dois brasileiros morando em Helsinque para contar como é estudar na Finlândia. A Ana Toledo e o Christiano Clementino aceitaram bater um papo comigo para termos umas opiniões mais embasadas aqui no blog 😉

 

Os dois cariocas são de áreas diferentes e estão em Helsinque por conta de experiências diferentes. A Ana faz mestrado em comunicação na Universidade de Helsinki e veio por conta própria, já o Christiano veio com bolsa do Ciência sem Fronteiras e passou um ano fazendo intercâmbio no curso de engenharia de produção. Apesar de a Finlândia ser um país com um custo de vida relativamente alto, os dois me garantiram que de 600 a 700 euros por mês são o suficiente para viver em Helsinque. O Cristiano jura de pé junto que dá pra viver até com 500, mas isso aí depende muito do apartamento onde você mora e do estilo de vida que você vai levar durante o intercâmbio. Conversando com eles, descobri que geralmente os estudantes têm prioridade para alugar apartamentos baratos aqui. Estudantes universitários também têm direito a comer no restaurante universitário (almoço e janta) por 2,60 euros. A gente almoçou lá um dia e a comida é bem honesta: tem sempre opção com carne e vegetariana, água, suco, pão, salada e leite (sim, por alguma razão, na Finlândia é super comum servirem leite no almoço).

Fora isso, estudantes também tem direito a descontos para usar os trens intermunicipais e pagam cerca de 40 euros por mês para usar o transporte de Helsinque (quem tem mais de 30 anos paga mais).  Como eu já tinha falado no vídeo sobre a Finlândia, estudantes pagam cerca de 110 euros por ano e têm direito a um seguro saúde das Uniões estudantis. A Ana e o Christiano me disseram que usam esse seguro e que é de boa. Porém, como o custo de vida por lá não é do mais baratos, é importante seguir o conselho da Ana e calcular muito bem antes de ir, especialmente se você for investir suas economias. “Eu sabia que estudar na Finlândia é de graça e que com visto de estudante dava para trabalhar legalmente”, conta a carioca ao relatar a razão de ter escolhidos a Finlândia como destino. O problema é que achar trabalho sem falar nada de finlandês não é muito fácil. No caso do Christiano, a escolha pelo país teve um motivo bem prático: o irmão dele mora na Finlândia e é casado com uma finlandesa. Durante a conversa com os dois, ficou muito claro que ambos estão super satisfeitos com a escolha. Quando perguntei qual o ponto negativo do país, o engenheiro não hesitou em responder: “o frio! Tem que botar milhões de camadas de roupas”. A Ana, no entanto, não acha que as baixas temperaturas sejam um problema. “É bom pra estudar”, conta a estudante.

 

christiano clementino bolsista csf na finlândia

 

 

Mesmo depois de um ano no país, Christiano afirma ter desistido do finlandês. “Não tenho a intenção de morar aqui pra sempre e todas as aulas são em inglês e absolutamente todo mundo fala inglês aqui. Todo mundo mesmo”. E tô pra dizer que não tiro a razão dele, depois dessas três semanas lá, entendo a decisão… finlandês não é bolinho. Já a Ana – que me passou a impressão de estar mega bem integrada na cultura e ter intenções de continuar por lá– garante que o idioma é bem complicado, mas não é impossível de aprender. O difícil, segundo ela, é achar finlandês disposto a falar com você em finlandês. “Quando eles ouvem que você não fala perfeito, acontece muito de mudarem direto pro inglês. Eles não tão acostumados a estrangeiro tentando falar finlandês e todo mundo fala inglês aqui”. Os dois afirmaram gostar muito da universidade na Finlândia e de tudo que ela oferece aos estudantes. Enquanto a Ana disse ter a impressão que na área de Humanas o nível de exigência e trabalho é bem pesado com muitos trabalhos e muita leitura, o Christiano disse não ter encontrado problemas para passar nas matérias que fez. “Achei os cursos mais fáceis que no Brasil e os professores sempre estão dispostos ajudar e dar uma segunda chance caso você se mostre interessado”. Além da faculdade, Christiano está fazendo estágio na Nokia. A Ana trabalhou na universidade por um tempo e atualmente está trabalhando em uma empresa como redatora.

 

Os dois, no entanto, foram categóricos que conseguir trabalho não é muito fácil. “Programador consegue emprego só falando inglês e bem rapidinho, mas em todas as outras áreas é mais complicado”, conta o carioca. Quando eu perguntei o que os dois mais gostavam na Finlândia, ambos responderam coisas bem diferentes. A Ana disse gostar da posição das mulheres na sociedade – a Finlândia é um país ultra igualitário e discriminação por conta do sexo é uma questão tratada de maneira séria pelo governo e pelas pessoas. “Nunca vi homens tão respeitosos na minha vida. Me sinto muito à vontade aqui, as pessoas são muito mente aberta e não julgam”, conta. Para o estudante de engenharia, o que mais agrada é o quão respeitosas as pessoas são umas com as outras. “Eles tem uma coisa muito legal de querer entender o outro, de se pôr no lugar do outro. As pessoas escutam e têm muito respeito pelos outros”.

Ana e Christiano em um evento na Universidade de Helsinque

Para os dois brasileiros, a adaptação ao país foi fácil e eles dizem que sempre foram muito bem tratados. No entanto, eles fizeram uma pequena ressalva: “nós dois somos brancos, já ouvimos outros relatos de brasileiros negros”. Nas ruas, é impossível não ver como a Finlândia é um país homogêneo, não sei se por conta da distância ou por conta do frio, não se vê fortes sinais de imigração ou mistura com gente de fora. Talvez justamente para aumentar o contato dos finlandeses com gente de fora, as universidades finlandesas estão investindo pesado em internacionalização e querem muito atrair estudantes internacionais. Quando conversei com um representante do Ministério da Educação no país, ele foi categórico em dizer que a internacionalização é importante para o país e que eles querem atrair cada vez mais gente de fora para estudar por lá. Afinal, multiculturalismo e conhecer o “outro” de perto é importante para que todo mundo possa viver junto e de boa.

 

Ana (de vermelho) e uma amiga com os típicos macacões que os estudantes usam em eventos da universidade

Ana (de vermelho) e uma amiga com os típicos macacões que os estudantes usam em eventos da universidade

 

Tanto a Ana quanto o Christiano me disseram ter amigos internacionais e finlandeses. “Geralmente, só não gosta daqui quem não consegue fazer amigos ou quem só anda com brasileiros. Mas a Finlândia tem uma vida estudantil muito intensa”, explica Ana. “Sim, tudo é mais fácil se você se envolver nas uniões estudantis. Eu não sabia disso antes de vir e depois que conheci, fiz um monte de amigos daqui e de fora”, aconselha Christiano. E para quem quer estudar na Finlândia, o Christiano tem um bom conselho: “para vir pra cá, tem que ter mente aberta. Quem não sabe nada da Finlândia se choca. Eles têm uma mentalidade bem diferente. Eu acho bem doido o fato de todo mundo aqui ter o sonho da vida simples. Tenho a impressão que todo finlandês quer ter uma casa no mato sem luz nem água corrente… só precisa da natureza e de uma sauna”.

Leia todos os posts sobre a Finlândia
Veja nosso guia sobre mestrado na Finlândia
Encontre um curso na Finlândia no buscador de cursos

COMENTÁRIOS

  • Ricardo Thaler Beck

    “Só precisa da natureza e de uma sauna” é minha impressão também.
    Esse é o segundo ano que venho trabalhar com paisagismo durante o verão e o que mais me impressiona é o quão integrada está a sociedade (e suas urbanizações) dentro dos bosques e, claro, que sauna é tão importante numa casa como um banheiro, não pode faltar.

    Porém dou uma ressalva quanto ao “absolutamente todo mundo fala inglês aqui”. No meio onde eu estou inserido, trabalhando em paisagismo, muita gente maior de idade solicita esse serviço e não fala nada de inglês, mas não deixam de ser simpáticos e comunicativos (da forma que seja) por isso.

    “As pessoas são muito mente aberta e não julgam”, isso é um pontão a favor daqui. Cada um tem sua particularidade visual, cabelos azuis, barbas até a barriga, tatuagens no rosto e ninguém oha feio pra ninguém.

    No bairro onde vivo existe uma notável imigração mussulmana, existe bastante gente do sudeste asiático também e conheci gente da Etiópia também. Aparentemente super bem integrados.

    Abraços, gratidão pela partilha de informações.

    • Oi Ricardo,
      obrigada pelo teu comentário 🙂 eu também adorei a Finlândia e esse debate da imigração por lá anda bem forte, cada um tem uma experiência diferente, que bom que a tua foi só positiva 🙂

    • Breno Ramos

      Oi Ricardo! Super interessante saber que existe mercado pra paisagismo aí na Finlândia. Eu me formo em arquitetura esse ano e quero tentar mestrado pra Finlândia, e se possível engatar em oportunidades de emprego por aí também.