Início » pessoal » Convivência multicultural na prática ou o mundo é maior que o teu Facebook
Foto: sxc.hu

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A vida real não tem unfollow. Na vida real, não tem como deletar ou bloquear “amigos”. A vida real não te oferece a opção “parar de receber atualizações”. Sabendo disso, sempre desconfiei de quem mede o mundo pela sua timeline. O que o que a gente vê nas redes sociais simplesmente não representa a maioria pelo simples fato de que nossas notificações mostram unica e exclusivamente o que queremos ver. Ou vai dizer que você continua ali fazendo o masoquista, olhando aquelas fotos de bichos estropiados ou acompanhando os comentários políticos absurdos daquele seu parente distante? Duvido. Até porque é muito mais fácil ser cool e se banhar na chuva de likes falando apenas para os seus afins.

Sempre desconfiei  de quem mede o mundo pela sua timeline. Assim como sempre me achei capaz de ouvir e respeitar a opinião dos outros mesmo que eu não concordasse. Então, assim consciente de que o mundo sempre foi e sempre será maior que meu Facebook, vim para Alemanha para, no mestrado, conviver durante dois anos com o mesmo grupo de mais ou menos 30 pessoas. A ideia de dividir parte da sua vida com gente de países tão diversos quanto Alemanha, México, Costa Rica, Palestina, Israel, Tanzânia, Síria, Brasil, Chile, Colômbia, Egito e Rússia sempre fez os olhos brilharem. Afinal, quer coisa mais legal do que um grupo tão multicultural e todas as coisas que se pode aprender com isso?

Na prática, a verdade é que não é tão simples assim. Apesar de toda a nossa suposta mente aberta, será que a gente tá tão pronto para conviver com a diferença o quanto acha? Não sei vocês, mas eu acredito que, de certa forma, essa facilidade que as redes sociais nos deram para  esconder e ignorar o que nos incomoda às vezes nos fazem esquecer que não somos e provavelmente nunca seremos a maioria! Eu sei, causa um certo choque ver gente da mesma área –  talvez especialmente na comunicação, que parece coisa de gente ~descolada~ e ~prafrentex~ – com visões de mundo absolutamente diferentes das nossas. Como assim um jornalista dizer que lutar por direitos para os homossexuais é ser a favor dos “errados humanos” (num trocadilho real feito com os “direitos humanos”)? Como assim um jornalista achar que mulher não ter liberdades mínimas no país Y ou Z não é nada demais? COMO ASSIM?

A vida real não me deixa dar unfollow, não me deixa bloquear ou parar de receber atualizações de quem acredita em coisas que eu pessoalmente abomino. A vida real não só não me deixa fazer nada disso, como ainda coloca eu e outros tantos numa sala por dois anos com pessoas com opiniões assim. E aí? Dá vontade de gritar de fazer isso ou aquilo? Mas e cadê sua mente aberta? Cadê seu respeito pela liberdade de expressar opiniões? Quedelhe, me diz?

Em diversas ocasiões, convivi com grupos diversos e diferenças culturais de todo o tipo, mas acredito que nunca um intercâmbio me desafiou tanto como esse está mostrando que vai fazer. Mal começou e o sentimento é de que, cada vez mais, vejo a necessidade de enfiar o dedo na ferida e simplesmente discutir assuntos polêmicos seja com quem for, mesmo que eu não vá mudar a opinião de ninguém, é só para exemplificar que pode ser diferente. Até porque a melhor prova de que a liberdade é uma coisa linda e deveria existir para todos é: estamos em um lugar onde se pode ser/pensar diferente e ninguém vai ser punido por isso. Nunca a abertura para conversar e ouvir foi tão importante, mesmo que irrite, mesmo que doa. É essencial em qualquer intercâmbio e a gente deveria praticar mais na vida real e – por que não? – na online também.

O mundo é bem mais diverso – e irritante! – que a nossa timeline. Ainda bem. Ou você pensa assim ou talvez seja melhor nem sair do Facebook mesmo.

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